Terminou a limpeza do apartamento, deixou tudo brilhando e ligou o televisor, eram quase quinze horas e a campainha foi acionada, ao abrir se deparou com Jorge que entrou, e como se Marcela fosse sua propriedade, enlaçou sua cintura e tentou beijá-la, a garota era forte e se safou com um forte empurrão. Jorge riu e quis voltar à carga, mas parou ao ouvir a voz de Marcela em tom ameaçador: - “Olhe Jorge, se tentar me forçar nunca terá nada de mim, além de que, vou-me embora e depois você terá de explicar ou inventar uma mentira para Irene e justificar minha saída daqui”. Jorge tentou argumentar: - “Você também disse que me quer, por que isto agora?” – “Porque quero que Irene tenha este filho, e espero que você participe e não atrapalhe, depois que eu estiver grávida veremos, mas antes não!”
Marcela jogara com o trunfo que tinha, dando esperanças a Jorge ganharia tempo, ou corria o risco dele tomar a decisão de mandá-la embora e se recusar a fazer os gostos de Irene. Venceu o desejo de Jorge por ela que, achando que mais tarde conseguiria tudo da garota, era só dar tempo ao tempo, mudou sua atitude, se desculpando e dizendo que estava apaixonado, mas saberia esperar, e que também queria o filho e dava-lhe razão em não querer fazer nada as pressas. Marcela fingiu acreditar nas desculpas do patrão, mas ao mesmo tempo já não o achou mais tão atraente como das outras vezes, pensou... “bem que este cafajeste merece uma boa lição, e quem sabe não serei eu a dar o que ele merece”.
Os procedimentos correram todos como esperado, Jorge pediu ao Dr. Hernani para apressar as coisas e foi atendido prontamente. Marcela só ia fazer os exames acompanhada de Irene que, a cada dia mais, se afeiçoava à moça, os exames locais foram feitos por uma médica da clinica que não fez perguntas, apenas examinou e colocou um parecer favorável no boletim, assim como não houve qualquer registro do evento que ia ser realizado. Logo que Irene entrou em período de ovulação foi à clinica, retirou o material no dia seguinte, a fecundação do ovulo foi confirmada pelo médico que acompanhou tudo especialmente interessado no caso. Irene e Marcela estavam solidárias, e todo dia pela manhã a moça fazia a medição da temperatura uterina até que, numa manhã de domingo, o termômetro acusou a temperatura ideal para a implantação do ovulo fecundado e que estava congelado na clinica.
Irene ligou para o doutor Hernani, e como Jorge chegara tarde da noitada com amigos, Irene não o acordou, desceu e tirou seu Escort da garagem com Marcela fazendo piada: - “Quando eu for ganhar o neném não vou deixar você me levar, senão vou ter o bebê no carro, gastou meia hora só para tirar o carro da garagem”. As duas riram e Irene acelerou para a Tijuca onde ficava a clinica. Quando chegou, Hernani e a doutora Célia, a mesma médica que examinara Marcela, estavam à espera. O medico cumprimentou-as em tom brincalhão dizendo: - “Cadê o Jorge, ficou com medo de não dar no coro?” Riu da própria piada e subiram para as instalações elegantes da clinica.
Marcela deitou-se e pensou... – “Agora não tem mais volta”, o medico recolheu sangue e, enquanto examinava a temperatura, pulsações, media a pressão sanguínea, Irene andava para todo lado sem parar, até que o médico rindo, pegou-a pelos ombros, empurrou-a para um sofá e depois que ela se sentou ele disse – “E fique quietinha, você é só participante”. Tudo estava perfeito, dois outros médicos acabavam de chegar e já foram assumindo suas posições para ajudar, uma médica que chegara já foi preparando a paciente, enquanto o outro já tirava o óvulo fecundado para o descongelamento, usando um processo moderno e rápido. Marcela pensara que o processo seria demorado e nem acreditou quando o doutor disse que estava tudo pronto. Hernani disse-lhe que podia ir para casa e que deveria voltar a clinica na quarta-feira seguinte para os exames.
Irene e ela riam sem parar durante o trajeto de volta ao apartamento, quando chegaram, Jorge estava assistindo televisão, a porta fora aberta por fora e ele viu sua esposa correr para ele e se atirar no seu colo rindo e, ao mesmo tempo emocionada, tentando contar o sucesso da operação, se enrolou toda e foi Marcela quem deu a noticia. – “Ela quer dizer que estamos todos grávidos!”- Jorge ficou realmente alegre com a noticia. Resolveram sair para um passeio pelo litoral, foram para Angra dos Reis e embarcaram num saveiro que fazia um roteiro por várias ilhas, com um almoço numa das mais bonitas de muitas que formam o conjunto, Marcela estava encantada com tanta riqueza e beleza reunidas num só lugar. Pensou novamente que gostaria muito de ser rica para nunca mais ter que sair dali.
Só retornaram a noite, cansados da viagem, mas achando que não tinham comemorado o suficiente, Jorge bem que chamou para tomarem banho e saírem de novo, mas Irene disse não, Marcela não deve fazer muito esforço. Riram, mas acharam que a medida era boa, menos para Jorge, que saiu para alguns chopes antes de ir para a cama. As duas mulheres ficaram sozinhas, e agora Irene era toda cheia de cuidados com a garota que se sentia mimada e feliz com a decisão tomada. Irene disse que ia contratar uma nova empregada e Marcela disse que não, só quando ela ganhasse o bebê, não deixou nem Irene argumentar mais, estava decidida e disse: - “Lá na minha terra se diz que gravidez não é doença, e depois, nem sabemos se já estou mesmo grávida, o doutor disse que pode ser necessário várias vezes para engravidar.
Irene ficou meio triste, e Marcela percebendo a abraçou e disse: -“Não se preocupe, eu já estou me sentindo grávida” - riu e colocou a mão no ventre exclamando: -“Oh, mexeu””, riu e se abraçaram como duas crianças felizes. A vida voltou ao normal, cada um vivendo suas expectativas, e a ansiedade maior era a de Irene, embora Marcela também às vezes ficasse até um pouco nervosa. Tinha medo de saber o resultado que poderia ser negativo e frustrar os planos, principalmente de Irene, que não conseguia nem trabalhar em paz, ligando de três a quatro vezes por dia para saber se ela estava bem. Chegou a tão esperada quarta-feira e Irene pulou cedo da cama, mas desta vez Jorge disse-lhe: - “Vou levar vocês, do jeito que estão é capaz de sofrerem um acidente no caminho da clinica”. Deixou-as no local e foi para o trabalho, combinando com as duas de pegarem um taxi na volta. Os exames foram rápidos e o próprio Dr. Hernani foi quem trouxe as noticias, chegou com o papel na mão, ajoelhou-se de frente a Marcela e encostou o ouvido na sua barriga, após alguns instantes de fingida auscultação disse: - “Esta menina está totalmente grávida”.
Foi um pequeno alvoroço com as palmas dos presentes e as lágrimas emocionadas das duas mulheres, que só conseguiram sair da clinica depois de se acalmarem bastante e terem ligado para o Jorge. Ele resolveu sair do trabalho, buscá-las na clinica e levar até o apartamento, deixou as duas num ambiente festivo e voltou ao trabalho, Irene ligou para sua empresa e cancelou todos os compromissos que tinha, resolveu passar o dia curtindo a gravidez do seu filho junto com a mãe de aluguel. Reviram os dias de comparecimento a clinica para os exames de pré-natal e os cuidados e exercícios que ela teria que fazer todos os dias até os três primeiros meses de gravidez. O primeiro mês passou com rapidez, Marcela, embora de vez em quando se lembrasse de Marcos, não tinha tempo de pensar no homem, e por isto um dia quando foi atender um telefonema levou um susto, e ficou por um instante sem saber como responder. Ele estava falando do Canadá e tinha ligado só agora dizendo que não queria incomodá-la. Esta desculpa serviu como deixa para Marcela, que neste dia estava só em casa e pode falar com liberdade: - “Puxa Marcos, já fazem mais de dois meses que você se foi e não deu noticias...”, Marcos deu mil desculpas, disse que os negócios tiveram envolvimento do governo canadense e foi preciso muito trabalho para acertar tudo, felizmente tudo deu certo e no final da semana estaria de volta. Despediram-se com Marcela preparando o terreno para quando ele voltasse: – “Marcos, lembra-se quando conversamos e eu lhe disse que gostaria de fazer algo por tia Irene, mas que não poderia contar ainda para você?” Marcos confirmou que se lembrava, e foi gentil dizendo que se lembrava de tudo o que ela lhe dissera nos mínimos detalhes. Marcela disse: - “Agora eu posso lhe contar, só não sei se vai me perdoar”.
Desligou com Marcos ficando um pouco encucado com o que ela teria de tão sério para lhe contar, mas o “não sei se vai me perdoar...” lhe dava a certeza de que ela andara pensando nele, não era bobo e sabia que por mais que fosse um homem atraente, o que contava para as mulheres era sua posição social e seu dinheiro, mas uma deusa como Marcela valia a pena gastar alguns milhões para tê-la, e estava disposto a gastar o que fosse preciso. Ficou ansioso para que chegasse logo o dia de regressar ao Brasil. Marcela por sua vez, teve tempo de colocar sua jovem cabecinha inteligente para pensar, armou um plano audacioso e, a noite, quando Irene e Jorge chegaram, ela disse que tinha algo para conversar e perguntou se poderiam ouvi-la depois do jantar, recebeu a confirmação e aguardou.
Quando terminou, Irene curiosa e temendo alguma mudança na decisão da moça, perguntou o que ela queria conversar, Marcela esperou um pouco e depois disse: - “Bem, o Marcos me ligou do Canadá e disse que volta este final de semana e quer conversar comigo, eu acho que vocês sabem que ele está interessado em mim e ele não me desagrada. O que eu quero é que me aconselhem, mas não no sentido de tirar a idéia da minha cabeça, e sim como devo agir, pois não me interesso apenas por uma situação estável por ele ser rico, mas quero que seja, se ele realmente quiser algo comigo, uma união verdadeira e legal, para isto preciso que confirmem esta história de que eu sou sobrinha de vocês. Parou e fitou os dois ao mesmo tempo, e viu que Jorge engolia em seco, enquanto Irene mais pratica, perguntou como ela iria fazer para esclarecer a sua gravidez, Marcela disse: - “Isto eu não vou esconder, pretendo contar a história verdadeira”.
Irene foi quem falou primeiro, - “Se você está segura do que quer, e como está mostrando um propósito honesto, eu aprovo, e o que você precisar poderá contar comigo”. Jorge resolveu mostrar seu desagrado, porém não podia falar o que queria perto de Irene, por isto disse: - “Eu vou pensar primeiro, depois lhe dou uma resposta, isto é muito inesperado... e quem me garante que ele quer ter um relacionamento sério com você? Espero que você me desculpe, primeiro vou pensar bastante depois lhe digo o que eu acho. Se eu concordar, vou ajudar sim, afinal o Marcos é um dos meus melhores amigos, mas em se tratando de mulher...” falou exatamente como um carioca... “...não ponho minha mão no fogo”.
Marcela sabia que os motivos eram outros, mas sabia os trunfos que tinha, por isto disse: - “Está certo, mas gostaria de uma resposta mais breve, ele chegará no final de semana e, conforme disse, virá aqui me procurar. No outro dia, eram dez horas e a campainha tocou, Marcela sorriu, pensou... chegou uma tempestade. Foi abrir a porta, era Jorge que, embora tendo a chave da porta, por motivos de estratégia, não a abriu. Quando Marcela abriu, ele já entrou dizendo: - “Vim esclarecer aquela conversa de ontem. Se você pensa que pode me fazer de otário está enganada, se você quer agarrar o velho rico eu não ligo, mas primeiro eu é que tenho direito e não vai me enrolar mais. Partiu para cima dela e a agarrou, e prendendo seus braços a beijou sem que ela fizesse nada para tentar impedir.
Animado, o fogoso Jorge começou a bolinar seu corpo, enquanto sussurrava: - “Minha gostosa, quando você se deitar com este macho vai esquecer aquele velho...” - de repente percebeu que a moça estava como uma estatua, não protestava, mas não correspondia aos seu arroubos de paixão, e um sexto sentido o fez perguntar: - “O que é, vai fazer c... doce agora? Qual é a sua, ta pensando o que? Eu também tenho dinheiro se é o que quer, diga a quantia!”, sentiu as duas mãos da moça no seu peito empurrando-o, e aí viu que ela estava chorando, ficou meio desconcertado, podia ser um cafajeste, mas nunca forçara nenhuma mulher contra sua vontade. Mesmo assim arrematou: - “Sua virgem de m..., pode parar de chorar, mas não aceito este papo do Marcos, vou avisar para ele que você é uma interesseira e não é minha sobrinha p... nenhuma”.
Fez menção de sair, mas ouviu Marcela dizer, - “Espere um pouco patrão, agora eu quero falar, pegou sua bolsa que estava em cima da mesa, e parecia estar ali de propósito, remexeu um pouco e tirou uma certidão de nascimento, entregando a Jorge sem dizer mais nada, ele recebeu o papel e resmungou algumas palavras ao estilo bem desbocado: - “Pra que eu quero esta p...? Eu quero é levar você pra cama!”- ela esperou ele olhar para a certidão, mas não esperou ele ler e disse: - “Tenho dezessete anos, e quando o bebê nascer vou estar completando dezoito, se você atrapalhar minha vida com Marcos, eu vou lamentar muito, mas vou dar parte a policia e livrar a cara de Irene e ferrar com você para o resto da vida.
Jorge demorou a digerir aquela conversa toda e, quando entendeu a arapuca que ele tinha caído, ameaçou a moça até de morte, o que não sabia é que estava se ferrando cada vez mais, Marcela tinha ligado um gravador que estava bem escondido quando ele chegou, e por isto evitara de falar muito. Não era burra e sabia que ele viria e tentaria qualquer coisa para não ver sua macheza desafiada, por isto se prevenira. O gravador era de Irene que, às vezes, gravava reuniões de trabalho, e como para Marcela era um brinquedo que ela usava para gravar sua voz cantando ou declamando alguma poesia de escola, ela não levou mais para o serviço, e às vezes se divertia com a garota e suas brincadeiras. Ele saiu furioso e bateu à porta do apartamento atrás de si, Marcela foi até a porta e a trancou por dentro, mas era uma preocupação inútil, ele não voltou. Meia hora depois tocou o telefone e era ele querendo conversar.
Ela o deixou falar a vontade, ele procurou se desculpar e disse que concordava com tudo, e que ela podia ficar tranqüila que ele não ia fazer nada, desde que ela mantivesse o trato sobre o bebê. Ouviu-a dizer com uma segurança de quem sabe o que quer: – “Ouça...” - ligou o gravador e deixou a fita tocar, Jorge ouviu e não disse mais nada. Ela foi quem continuou: - “Esta fita vai ficar bem escondida, mas não se arrisque a fazer nada contra mim, pois ela iria cair nas mãos de quem menos você espera, e quanto ao bebê, meu acordo é com sua esposa, faça sua parte direito e tudo vai ficar bem”. Desligou o telefone, riu e depois chorou, sabia que estava jogando alto, e sabia que era ela de um lado da balança e um mundo desconhecido do outro lado. Estava jogando e jogos têm riscos.