Capítulo VII
Jorge e Irene só voltaram depois da meia noite. Ficaram discutindo sobre o assunto procriação. Irene lhe falou do oferecimento de Marcela e frisou a vontade de ter um filho dele, mesmo não sendo por um processo natural. Jorge deixou que ela falasse por muito tempo, e quando finalmente ela perguntou se ele concordava, teve que esperar alguns minutos pela resposta. Jorge analisou os prós e os contras da questão. Se por um lado era um saco ter que passar por todo o aperreio que envolvia o processo da fertilização, isto faria com que ele tivesse uma afinidade maior com Marcela, e poderia ajudá-lo a levar para a cama a garota que estava deixando-o maluco de desejo, e já estava ficando difícil esconder de Irene a paixão avassaladora que o atingira.
Além de que, também sonhava com um filho, e se a garota queria, talvez ele pudesse inverter a história da fertilização in-vitro e combinar com ela uma farsa, fazendo o filho ser dele e dela. Quando respondeu, primeiro segurou a mão da esposa e disse que ele concordava sim, em nome do grande amor que tinha por ela. Irene deixou cair algumas lágrimas de felicidade, e como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo, pediu uma champanha para comemorarem e fazer planos. Jorge colaborava e fazia o sonho ficar maior, afinal... “ser feliz e fazer a felicidade dos outros é tão fácil”. Eles voltaram de pileque para o apartamento, e Irene ficou um pouco decepcionada por ter visto que Marcela fora dormir, mas teve o consolo de Jorge que lhe disse que no domingo poderiam falar disso a vontade, pois ele iria para o clube da Gávea e nem queria saber de encontrar vascaínos pela frente.
Dormiram com Irene sonhando que o mundo era muito bom e a felicidade era uma questão de tempo para encontrar. No outro dia só acordaram porque Marcela tinha se levantado antes das oito e feito o café, quando o entregador de pães tocou a campainha, ela estava no banheiro e demorou a atender, isto fez com que ele tocasse de novo fugindo a regra e acordando Jorge que, ao sair da cama, a acordou também. Ela levantou de bom humor e enquanto Jorge tomava banho, ela apenas escovou os dentes, colocou um robe e saiu sorridente para cumprimentar Marcela. Pelo sorriso e cara de felicidade, a bela moça adivinhou que a conversa com Jorge fora frutífera e exclamou:
- “Hum... pelo jeito eu vou ficar feia e barriguda já, já”! Irene ficou apreensiva, mas o sorriso de Marcela deu-lhe confiança para responder; - “Feia não, vai é me matar de inveja ,isto sim”!
As duas se abraçaram e Marcela se comoveu deixando as lágrimas rolarem. Irene também se emocionou e as duas ficaram rindo e chorando sem falarem, mas numa comunhão nova que soou como um alarme para Marcela, que começou a sentir que alguma coisa estava mudando dentro dela. Apertou-se com força contra o corpo de Irene e disse: - “Nós vamos ter este filho”! Se separaram, mas continuaram de mãos dadas sem falarem, até que a porta do quarto do casal se abriu e o barulho desmanchou o momento mágico que estavam vivendo as duas. Jorge cumprimentou Marcela e disse estar com fome, Marcela que já tinha preparado a mesa, disse: - “É só sentar-se e comer”. Jorge e Irene não se fizeram de rogados, Marcela como de costume, ficara perto da mesa sem se sentar e esperando para, se quisessem alguma coisa especial, ela serviria.
Foi uma grata satisfação quando Irene se levantou e, afastando a cadeira, disse para ela se sentar, pois agora era parte da família, e viu Jorge também se levantar e confirmar as palavras da esposa acrescentando: - “Você vai continuar recebendo seu salário e vamos combinar um jeito de você ser muito bem recompensada por ser a mulher que vai abrigar nosso filho até ele se formar e nascer”. Ela sentou-se e não disse nada, visivelmente emocionada, Jorge que bebia cada gesto, cada mudança no semblante da moça, notou e, por um momento, teve um pensamento menos sórdido em relação a ela, mas quando ela sorriu e agradeceu, voltou a sede de beijar aqueles lábios tentadores que delineavam aquela boca vermelha, jovem e parecia uma maçã pedindo para ser mordida. Logo depois do café, Jorge fez uma ligação ao telefone para um médico amigo seu e marcou um encontro no clube.
Ambos eram flamenguistas, e o doutor Hernani era um velho companheiro de farras, já o havia tirado de uma encrenca, fazendo o aborto de uma garota menor de idade que ficara grávida dele. Saiu e foi para o clube deixando as duas para fazerem planos sobre o futuro herdeiro. Irene chamou Marcela e foram almoçar num restaurante perto da lagoa, lá sentadas numa varanda tranqüila, conversaram e acertaram os detalhes da aventura. Marcela não queria falar de pagamento, mas Irene fez questão de lhe assegurar uma boa quantia em dinheiro, e que na manhã seguinte ela não trabalharia e iria com ela ao banco para abrirem uma conta, mas Marcela pensando que assim o fato de que sua menor idade iria aparecer, pediu a ela deixar para outra hora, não queria dinheiro agora, depois que o bebê nascesse ela poderia ajudá-la, principalmente nos estudos.
- “Não dona Irene, esqueça pagamentos, eu confio na senhora e vou fazer isto porque minha vida tem que tomar um rumo. Acho que se vamos ter uma relação tão forte de sermos mães divididas, teremos que fazer isto numa base de confiança, como um pacto entre nós de não deixarmos nada atrapalhar esta confiança.
Irene concordou e, segurando as mãos da garota, jurou que elas seriam amigas sempre e que faria tudo para ela atingir seus objetivos. Mais uma vez Marcela se perturbou com o gesto de Irene, sentiu aquela sensação de que algo estava modificando seus sentimentos, ela não atinava com o que poderia ser, mas sentiu um súbito calor afoguear-lhe o corpo e retirou sua mão com delicadeza, levantou-se indo até mais perto da mureta da varanda e olhou para o mar não muito distante da lagoa, e que mostrava inúmeras embarcações velejando naquelas águas tranqüilas de uma manhã ensolarada.
Voltou a mesa e perguntou a Irene se já tinha viajado em navios, Irene contou com satisfação a viagem que fizera por muitos países com Jorge, e disse que um dia elas iriam viajar juntas. Marcela ficou um pouco em silêncio, pensou que precisava ficar sozinha e rever uma porção de coisas da sua vida com muita urgência, mas por enquanto o melhor a fazer era curtir a felicidade de Irene, que agora não queria mais ser chamada de senhora nem de dona. Se tinham um pacto de amizade, os laços também deveriam ser mais afetivos. Tudo estava saindo como Marcela queria, só uma coisinha beliscava seu coração e mexia com sua cabeça... não sabia definir o que era, mais uma vez veio a vontade de ficar só, e balançou a cabeça para afastar de uma vez as sombras enigmáticas.
Às quinze horas estavam em casa e continuavam ainda eufóricas no planejamento do sonho de Irene, o telefone tocou e Irene atendeu, era Jorge dizendo que estava na garagem e iria subir com um amigo, Irene mais que depressa calçou uma sandália, e Marcela avisada, correu para o quarto e colocou um vestido menos chamativo do que a blusa transparente que tinha vestido. Dentro em pouco soou a campainha e Marcela foi abrir dando passagem a Jorge e ao doutor Hernani, que logo foi elogiando a beleza de Marcela e ouviu de Jorge que ela era a sobrinha que ele mencionara. O médico que já conhecia Irene a cumprimentou e, com o discurso que sempre usava “eu sou médico e ainda não sei o remédio que se usa para estar assim sempre jovem” e emendou “se todas as mulheres prometessem ficar como a sua, Jorge eu me casava, mas na incerteza não me arrisco”.
Todos riram e até Marcela, agora se sentindo mais intima com Irene, acompanhou soltando seu riso cristalino, que soou como uma melodia para os ouvidos. Jorge pediu a todos que se sentassem, e se dirigiu ao grupo dizendo que trouxera o doutor Hernani, que tinha uma clinica especializada em gravidez, e que concordara em realizar todo o processo da fertilização. Tinha profissionais competentes e, se necessário ele poderia contar com outros com especialidades mais avançadas ainda, mas contava com o sucesso da operação sem que isto fosse necessário. Irene agradeceu a Jorge, ela sabia que isto era evitar os preâmbulos e a burocracia, se fossem fazer as coisas com advogados e dentro da lei como requeria este tipo de gestação, levariam meses talvez anos para conseguirem uma liberação. O doutor Hernani, embora sem muitos escrúpulos, era um médico famoso e competente, e era freqüentador das páginas das revistas de medicina mais famosas da Europa, sempre participando de congressos sobre esta especialidade.
Jorge se serviu de whisky e ofereceu ao doutor que aceitou, mas pediu para misturar água ao seu, as mulheres tomaram refrigerantes enquanto os empanados de frango, “novidade lançada recente no mercado” ia deixando um cheirinho gostoso no apartamento. Logo Marcela retirou do forno a iguaria que agradou a todos, tendo que assar mais enquanto o doutor ia desfilando os procedimentos necessários para o evento a se realizar. Jorge iria a clinica para retirarem o material, Irene iria seguir alguns procedimentos de exames para saber quando estaria ovulando, e Marcela faria exames vários para saber se estava apta a receber o óvulo fertilizado, tendo marcado horário para Jorge no outro dia, e já na terça feira para Irene e Marcela, que iriam juntas. O doutor se despediu, e Irene comemorou agradecendo ao marido pelo interesse.
Conversaram muito sobre o assunto e sempre com a preocupação de que Marcela estaria mesmo certa do que queria. Ela estava firme na sua decisão e garantiu que agora, se não fizesse o proposto, se decepcionaria. Na segunda- feira Irene fora para o trabalho junto com Jorge, que a deixou na porta da empresa, Jorge ficou no seu escritório até o horário que teria de ir para a clinica, e depois foi se encontrar com seu amigo doutor Hernani, com quem, após a coleta do material, foi almoçar junto com o médico. Em casa sozinha, Marcela começou a se lembrar da alegria de Irene, sentiu que ela era uma pessoa especial e que não poderia fazer mal a alguém assim, repassou sua vida e, desta vez não espantou a lembrança da mãe e do pai.
Lembrou dos dois com saudades, e relembrou sua tempestuosa saída de casa, pensou nos momentos carinhosos em que seu pai admirava sua beleza e a abraçava com orgulho de pai coruja que a amava. Arrependeu-se de tudo e chorou, chorou como uma pessoa que tinha perdido algo muito importante e não sabia se voltaria a tê-lo de volta. Acusou-se de pessoa má e indigna do pai e da mãe que a criaram, mas prometeu a si mesma que, uma dia, iria pedir perdão a eles e recompensá-los por todo o sofrimento que lhes causara. As forças que movem os destinos das pessoas estavam agindo sobre ela. A vontade agora de ajudar Irene com um gesto tão nobre, trouxe a tona os sentimentos bons que seus pais incutiram em sua alma.
Como será a Marcela mais adulta... só saberemos nos próximos capítulos.
Continua na próxima sexta-feira.
Valdemiro Mendonça
- O Trovador -
O Choro
Não era aquele choro barulhento
foram soluços de triste amargura,
eram lágrimas de arrependimento,
o despertar de uma nova criatura.
Eram as forças do grande Criador
que se fazia presente na essência,
onde está para florescer um amor;
Ele demonstra sua complacência.
Nascer querendo o que não se tem
roubar do arco íris seu pote de ouro
e ser convidado por gente de bem,
a brilhar nas festas com seu tesouro.
A desigualdade social é aquele vilão
que corrompe até a alma mais pura,
e faz aquele que se arrasta no chão,
querer voar na imensidão das alturas.
Mas se uma semente boa foi plantada
e fizer as pétalas do amor desabrochar
toda força de Deus a fará abençoada
para que o pecado, ele possa perdoar.
Valdemiro Mendonça
- O Trovador -