Capítulo VI
Sonhou que viajava entre bosques frondosos sobre um caminho largo e atapetado com as flores de mil cores que as árvores deixavam cair para saudar a sua passagem. O caminho era reto como num túnel e no final tinha uma luz. Esta luz era formada pelo brilho de gemas preciosas com uma miríade de raios multicores que lhe davam as boas vindas para um mundo novo, onde ela, como princesa, reinaria sobre súditos fiéis que a amariam e cantariam louvores à sua beleza, fazendo-a ficar conhecida pelos quatros cantos da terra. Sorria, pois pássaros de penas lindas que brilhavam como lâmpadas incandescentes queriam que ela parasse a carruagem para dançar com eles.
De repente, na frente dos cavalos da sua carruagem, saltou uma figura atlética e fez os animais pararem de chofre. Era um homem alto, de seus trinta e três anos mais ou menos, que anunciou apontando um arco armado com uma flecha em direção a janela da carruagem, gritando: - “É um assalto e quero mil beijos da princesa que está na carruagem ou chamarei a bruxa Irene para transformar a carruagem em abóboras, os cavalos em ratinhos e o cocheiro num gato preto malvado, que comerá os ratinhos e levará a princesa para o castelo do bruxo Epaminondas que se disfarça de porteiro do castelo”.
Ela desceu da carruagem e estava já fazendo um biquinho para pagar o preço exigido, quando de repente um novo personagem entrou na história. Outro homem atlético com porte de rei surgiu num lindo cavalo branco e, ameaçando com sua espada brilhante, fez recuar o homem com o arco de flechas que parecia amedrontado diante do poder e força do antagonista, que se mostrava como um poderoso senhor. Acompanhado de um séqüito de criados fortes e que pareciam dispostos a dar a vida pelo rei, o assaltante desencorajado só ganhou um beijo e fugiu, prometendo que voltaria para um novo assalto e, desta vez, a princesa ficaria a sua mercê.
Quando o meliante fugiu, a princesa se preparou para agradecer ao rei, mas o viu através de uma nuvem cercada de estrelas fulgurantes partindo para longe. Sem outra opção, entrou na carruagem e mandou o cocheiro tocar os cavalos em direção à saída do túnel, exclamando em alto e bom som: - “Seu rei de merda, empata f...”. Ouviu os estalos do chicote e acordou com raiva do rei e, ao abrir os olhos, viu Irene, que batia palmas e com um sorriso grande na cara dizia: - “Acorda bela adormecida, já são onze horas, Jorge foi para o Maracanã e nós vamos hoje almoçar na praia e ver os pilotos de asa delta, surfistas e todos os gatos do Rio que gostam mais de mulher que de futebol”. Riu um riso de diabinha que no fundo só tinha diploma de anjo, “e dos que rezam por milagres e acreditam que eles acontecem”.
Marcela deu um pulo da cama e gritou: - “Bom dia tia”! riu e disse: - “Desculpe dona Irene. Acho que andei sonhando e acabei dormindo mais do que devia”. Irene disse: - “Não se desculpe tanto, ponha aquele biquíni de laços que compramos na semana passada e vamos preparar um bom café. Hoje vamos voltar da praia só quando o ultimo raio de sol for embora”. Marcela entusiasmada disse: - “É para já patroa”! riu, fez sua higiene matinal rapidamente e saiu para preparar o café, enquanto Irene foi tomar banho, a imaginação da adolescente logo achou um significado para o banho um pouco demorado. Era devido aos embates amorosos da patroa com o marido bonitão, coitadinha... Mostrou que não sabia nada da vida dos casados.
Na verdade, Irene estava tomando banho e lembrando-se da festa, sabia que seu casamento estava precisando de uma dose urgente de alguma coisa nova que desse ânimo aquela relação que, embora estável, podia desandar por falta de bases sólidas, como um filho, por exemplo. Sabia também que o marido tinha relações extraconjugais, e não se importava muito. Era inteligente e, quando era mais jovem sentiu ciúmes, mas depois aceitou numa boa as escapadas do maridão, em contra partida, também ela já tinha pulado a cerca, principalmente quando o seu Jorge saia de férias e ia pescar com os amigos no Pantanal, de onde só voltava no final das férias.
Nestas ocasiões, ela, uma madame classe média alta, emergente à classe rica, usava seu carro e desfilava até encontrar alguém que lhe agradava, e gastava um pouco das suas economias na farra, sem remorso, já que sabia que estava apenas devolvendo os chifres e ainda fazendo jus a aura da cidade maravilhosa “onde todo compromisso é sério e toda traição conjugal já está incluída no pacote do casamento”(*). Ultimamente não estava se dando a estes prazeres, e em dias como aquele, entregava-se às lembranças dos momentos de luxúria junto com os homens mais completos de sua vida. Isto era um lenitivo, e funcionava como um afrodisíaco para que ela se enveredasse pelos caminhos libidinosos que, entre suspiros e ais abafados, descortinava o véu da prudência e se entregava a busca do néctar que quando jorrava, trazia um terremoto de emoções sempre em doses desiguais e surpresas às vezes compensatórias, outras... “quase um desastre”.
Depois do café, desceram a rua e caminharam para a praia, rindo e carregando guarda sol, toalhas e frascos de protetores solar, cada uma ostentando sua saída de praia como um poderoso imã para os olhares masculinos. Irene caminhava como as cariocas, com a linda bunda fazendo aqueles bailados hipnotizantes, e que Marcela, como boa aprendiz, assimilou na hora. Fizeram o deleite de quem teve a sorte de ver a dupla passar nas calçadas, e que provocariam uma nova musica se por ali se encontrasse um Tom Jobim ou mesmo um Dom Chupim, dos muitos que tentavam imitar o mestre.
Quando iam fincar o guarda sol, um rapaz de uma barraca de sucos saltou o balcão com agilidade e naquele jeito inigualável do povo carioca, se ofereceu e fez o serviço. Claro, ganhando logo o dinheiro da venda de dois cocos gelados e conquistando a preferência da madame e sua acompanhante, que entre cocos, refrigerantes e caipirinhas vão recebendo os elogios em todas as línguas imagináveis. Isto com o negociante fazendo questão de traduzir cada um deles para o português, numa ação que deveria ser permanente no Rio das maravilhas, sem nunca deixar o banditismo estragar uma beleza que sempre foi o cartão de visita do Brasil no mundo, e que macula este povo que é por natureza gentil.
Claro, os cariocas aprendem qualquer costume. E para agradar o freguês vale tudo, doutor, madame, (dixtinto). Que nem o casal de neguinhos, e quem conta são eles mesmo. A francesa joga o lencinho no chão e o francês todo cheio de salamaleques apanha o lencinho, cheira, devolve e escuta da beldade: - “Merci bocú” ele responde: - “No pa de qüá” - a neguinha joga o lenço no chão, o neguinho olha o lenço cheio de catarro e fala: -“Nojenta” pega e escuta da neguinha: - “mexi com o c...”, e ouve do neguinho: - “Pra lá e pra cá...”. Ta também acho uma mer... cadoria, mas não vou apagar, eles é que inventaram agora que ouçam, degustem e riam ou xinguem se preferirem.
Depois de comerem salgadinhos, sanduíches e churrasquinhos ficaram por algum tempo curtindo o sol e um pouco quietas, nisto passou uma senhora grávida e com um barrigão daqueles que a mulher tem que jogar o corpo para trás senão corre o risco de cair para a frente. Marcela viu o olhar de Irene acompanhar a visagem até ela se perder entre os banhistas. Resolveu de vez colocar em prática um plano que estivera arquitetando, disse: - “Dona Irene, tenho notado que a senhora se liga muito em crianças e mulheres grávidas, até agora não quis perguntar, mas vendo que está casada há bastante tempo e não tem filhos, me ocorreu que, ou a senhora ou seu marido tem problemas que os impedem de ter filhos, não gostaria de falar a respeito? Ou se não... desculpe-me”.
Irene esperou um pouco como se meditasse e depois disse: - “Meu marido é saudável, a encrencada sou eu mesma. Eu tenho sim, muita vontade de ter filhos, mas já fiz todos os exames e é impossível para eu engravidar, tenho ovulação normal, mas um útero do tamanho de uma ervilha”. Riu do seu exagero, mas deu a Marcela uma idéia exata do problema. A moça perguntou-lhe se não pensou em adotar, ela respondeu que Jorge não queria adotar e ela já havia tentado conversar, mas ele era irredutível e ela não queria magoá-lo, Marcela não queria apressar as coisas, esperou ela falar mais.
Irene depois de um tempo em silêncio, como se estivesse pensando nos seus problemas voltou a falar: - “Tenho pensado em fazer uma fertilização in-vitro, mas confiar numa pessoa para desenvolver o filho é que assusta. Encontrar pessoas dispostas a fazê-lo por dinheiro é fácil. Difícil é garantir que esta pessoa depois não vá inventar uma porção de problemas para arrancar mais dinheiro ou até resolver lutar pela criança na justiça”. Marcela de supetão, disse: - “Eu faço isto para a senhora”! Irene ficou surpresa e perguntou se ela estava falando sério, - “Sim” respondeu Marcela que não era de ficar pensando para se decidir, ela era um vulcão em atividade e ia levando sua vida sem planejamento, como qualquer jovem, mas só que ela era decidida.
Irene riu um riso nervoso e perguntando agora com o coração aos pulos... – “Por quê você faria isto, dinheiro”? Marcela pensou antes de responder... – “De certa forma sim dona Irene, o que eu quero é garantir que não vou ter que voltar mais a morar em cidade de interior, e possa estudar para aprender a me defender sem precisar de homem para garantir meu sustento”. Irene até gostou das palavras da moça, ela mesmo tinha tomado esta decisão, embora até se formar em engenharia, tivesse que ralar num emprego onde ganhava só o suficiente para viver e estudar, o seu patrão, um velho galinha, de vez em quando lhe dava algum dinheiro extra para fazer compras, desde que ela fosse boazinha com ele, e lhe desse uma noite de prazeres em algum motel fora da cidade, onde não havia perigo da família do velhote vir a ficar sabendo das suas escapulidas.
Quando conheceu Jorge se apaixonaram, e ela não escondeu isto dele, que não fez qualquer questão, dizendo que o importante era a vida dos dois dali em diante. Sua formatura se deu seis meses após conhecê-lo e, um mês depois, se casaram sem muita pompa e só com a presença dos amigos mais próximos e os padrinhos, os dele, Marcos e sua esposa, que ainda eram casados, e dela, um casal de estudantes, seus colegas de faculdade. Mergulhara nestes pensamentos por alguns longos segundos e Marcela pergunta-lhe: - “O que foi não gostou que falasse”? – “Não, que idéia, estava pensando que já fui um pouco como você, olhe, isto vai requerer muitas conversas, planejamento, e teria que ter a aprovação de Jorge, mas acredite, eu tendo você como mãe emprestada para meu filho, quero sim! E serei eternamente grata”.
- “Pois então converse com ele. Eu quando tomo uma decisão é para valer, e acho que se tem que ser, o quanto antes melhor”. Voltaram para o apartamento antes do previsto, com Irene agitada e impaciente. Jorge que sempre que o Flamengo perdia ficava uma arara e saia do estádio direto para casa, aonde chegava com uma tromba que só se desfazia depois que ela conversava com ele e saiam para tomar alguns chopes, antes das sete tocou a campainha do apartamento, Irene disse para Marcela: - “Hum... o Flamengo perdeu”! Abriu a porta e já foi logo abraçando o marido que reclamou: - “O Juiz estava comprado, ladrão miserável. É sempre assim, o Vasco só ganha comprando o juiz”. Quando viu a moça, se acalmou um pouco e chamou Irene para descerem até a rua para tomarem um chope, Irene concordou e falou para Marcela que estava preparando o jantar: - “Não vamos demorar, uma hora e meia no máximo estaremos de volta”.
Saíram e Marcela pensou: “Vão decidir meu destino, e eu vou voltar a ser virgem, não vou precisar nem costurar a minha amiguinha de baixo”, riu e voltou a cuidar do jantar. Lembrou-se de Marcos, precisava esconder isto dele, ou melhor... “nem pensar no ricaço antes dela consumar o que se propôs. Como um bom presságio aos seus propósitos o telefone tocou, quando atendeu ouviu a voz grossa e segura de Marcos do outro lado da linha, respondeu e, dando uma entonação alegre à voz, disse: - “Oi Marcos. Se ligou para falar com o tio ele e tia Irene acabaram de sair”. Marcos disse: - “Não! Eu liguei para falar com minha professora de dança”. Ela – “Então pode falar, a professora está na escuta” riu e deixou ele continuar, ele falou que tinha ligado antes mas ninguém atendera o telefone, ela explicou o porque e o ouviu. – “Estava pensando que ia viajar sem falar com você”? ela, fingindo-se surpresa disse: - “Mas já vai viajar, esta noite, tão depressa”? E ele – “Pois é, surgiu um imprevisto e vou ter que passar algum tempo no Canadá onde tenho negócios, infelizmente viajo agora as vinte e duas horas, e já tenho que ir para o aeroporto” - ela falou por sua vez que sentia muito sua partida, ouviu ele suspirar do outro lado e sorriu.
Ele falou tudo que ela queria ouvir, que não conseguia tirá-la do pensamento e assim que retornasse em no máximo um mês e meio queria falar com ela, ouviu-a dizer que iria aguardar com saudades a sua volta. Ele desligou o telefone sem vontade e ela esperta... mais do que adivinhar, sentia que aquele homem era seu. “Tinha apenas que saber se conduzir”. Depois de se alimentar um pouco, deixou o jantar sobre o fogão e, às onze e meia, como o casal não chegou, foi-se deitar. Não dormiu de imediato, estava ansiosa para saber o resultado da conversa entre Irene e Jorge, agora mais do que nunca precisava que ele e Irene a aceitassem como mãe de aluguel, o jogo era alto, mas ela não tinha nada para perder, portanto, o que ganhasse seria lucro.
(*) Apenas uma brincadeira do autor parodiando a um amigo carioca. Ele se diz: - "corno aceitante”.
Continua na próxima sexta-feira.
Valdemiro Mendonça
- O Trovador -
Perereca pererecando
Escultura formada mulher
criança jogando pesado,
ela num lado da balança
um mundo do outro lado.
Um pouquinho de pureza
por um tanto de pecado,
perereca tomando banho
a cobra olhando de lado.
Pular na folha de inhame
pode ser uma maravilha,
mas o sapo está em cima
já abrindo sua braguilha.
Situação de muito impasse
Sem saber onde é o escapo
dum lado o rolo da cobra
e do outro o pinto do sapo.
Resta ainda o último recurso
mergulhar e sair nadando,
ver a cobra comer o sapo
e sair na boa pererecando.
Ou até se vestir de lingüiça
e levar a cobra no embalo,
e daí se a mula é manca?
Eu quero é andar a cavalo.
Valdemiro Mendonça
- O Trovador -